O Livro
Era mês de março e eu estava na antiga casa dos meus
pais, o tempo estava bom e o vento roçava de leve as folhas das arvores ao meu
redor enquanto eu sentada no velho balanço folheava uma antiga revista que
encontrara no quarto de Lúcio. Meu irmão colecionava revistas, aliás, ele lia
muito, já que na época não havia muito entretenimento como há hoje em dia.
Lembro as noites em que nós sentávamos em frente a cadeira do papai e com os
olhos já marejados de sono pedíamos que lesse mais uma vez a historia do gato
de botas. Papai era leitor assíduo, e não se negava ao seu público, mesmo que
ele fosse apenas seus dois filhos sonolentos. Tanto meu irmão como eu herdamos
de nosso pai a paixão pela literatura, quando pequenos líamos desde os livros
empoeirados de Machado de Assis até a bula do remédio de hipertensão da vovó.
Enquanto folheava a revista passei os olhos por sobre um de seus artigos que
trazia uma citação de uma escola da região, fechada a mais ou menos oito anos
por perigo de desabamento. Era uma escola muito antiga e conceituada na época e
papai insistiu que estudássemos nela, lembro de sua vasta biblioteca, e da
velha senhora Vilma, que sempre me chamava a atenção quando me via a correr por
entre as estantes. Dei uma ultima olhada na revista, levantei do balanço que
com um estalo suave parecia aliviado de estar livre do meu peso e entrei pela
porta dos fundos da nossa agora inóspita casa.
Dentro da biblioteca
da mansão a poeira pairava sobre todos os móveis e logo um espirro começou a se
formar em minhas narinas, como que por pirraça forcei o espirro a se reprimir
até desaparecer a vontade. Pousei levemente a ponta dos dedos sobre os livros
velhos e brocados que se encontravam numa caixa em cima da mesinha a fim de
encontrar um titulo que me chamasse a atenção. Nada. Meu Deus, que desperdício
de tinta e papel! Best Sellers
antigos, revistas de fofocas e alguns didáticos. Fui de encontro à estante
abarrotada pelos melhores livros que papai tivera e que ali foram colocados por
ele ainda em vida, agora visualizava títulos de renome, escritos por autores
consagrados e de grande prestigio. Avistei no alto um clássico, Júlio Verne, “Volta ao mundo em oitenta dias”, um dos
preferidos de meu pai, juntamente dos demais títulos da coleção que ele
possuía. Aparentemente bem conservados em material reforçado que lhes davam um
ar de superioridade e elegância em relação aos demais livros, as folhas presas
a base por finas linhas perfeitamente trançadas. Após admirar o livro de
coloração monocromática por alguns segundos comecei a folheá-lo freneticamente,
de vez em quando molhando os dedos na língua, ato que papai odiava, “pare de
babar nos meus livros” dizia. Por fim encontrei algo junto ao marcador de
paginas, um bilhete solto entremeados do livro, escrito a mão com caneta e em
papel simples. “Estante 12-5. Queimar”. Meu pai em toda sua complexidade
enumerava as estantes e as prateleiras a fim de encontrar qualquer livro com
mais facilidade em meio a todo aquele mar de papel. Deixei o clássico de Verne sobre
a mesinha e procurei com os olhos a tal estante 12. Era a penúltima na fileira
de estantes, seguida por outra com antigos trabalhos de monografia. Em longas
passadas me dirigi a tal estante e mirei a quinta prateleira onde somente um livro
preto, preso por uma amarra de couro recostava-se, como que um velho cansado
pelo tempo. Apanhei-o e imediatamente cinzas aderiram-se a minha mão, talvez
provenientes de uma tentativa de meu pai de se livrar do livro, limpei-as no
jeans e puxei a presilha que o lacrava. Por que meu pai precisaria queimá-lo?
Por que o tentaria e não persistiria no ato. Minha pele empalideceu quando
corri os olhos sob suas primeiras linhas. Uma onda de arrepios tomou me subindo
da base da coluna até a nuca. “Diabolicum” era o título do livro. Não era
preciso saber muito latim para deduzir o que dizia o título. Deus, por que meu
pai teria algo do tipo em casa. Foi o primeiro pensamento que me surgiu. De repente
uma vontade louca de explorar as estranhas do livro, lê-lo, conhecer seus
segredos eclodiu dentro de minha mente. “Oh implacável curiosidade humana,
condenação dos fracos e perdição dos pobres de espírito.” Clamei. Puxei uma cadeira que havia ali perto e me
sentei, durante alguns segundos me lancei a questão religiosa. Deveria eu, como
cristã, batizada e crismada, dedicar atenção a tal literatura nefasta e de
origem macabra? O que mamãe diria? Droga. Apesar de possuir formação religiosa
e de pertencer a uma família em que quase todas as mulheres se tornaram beatas
fervorosas, ainda sobrava dentro de mim uma idéia, uma concepção de que nada
daquilo era real. Deus, o diabo, céu e inferno. Havia momentos que eu me
recusava a acreditar. Com essa idéia em mente, comecei a ler. A lua já brilhava
no céu quando Marcos parou o carro em frente a casa. Sai e bati fortemente a
porta. Mal percebi quando a sombra lúgubre de um vulto envolveu meu corpo, tudo
se tornou trevas e mergulhei fundo na escuridão.

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